João Pedro tinha uma vida perfeita. Tinha a escola perfeita, os amigos perfeitos, um futuro promissor e acima de tudo, tinha a família perfeita.
Filho de um engenheiro consagrado no ramo civil de São Paulo com uma ex-diplomata, João era o primogênito, tendo apenas um irmão, cujo desde pequeno demonstrava as habilidades do pai para com cálculos e contas imensas, ao contrário de João, que tinha grande talento oratório e representativo, tal como a mãe.
João ouvia seus amigos reclamarem de como seus pais sempre brigavam, discutiam ou até mesmo se divorciavam. Uma de suas amigas era órfã de pai, fato que João realmente lamentava, assim como todos os outros casos de família que ouvia, uma vez que ele possuía a família que todos desejavam: A perfeita.
O garoto promissor tinha uma afeição em especial excesso por sua mãe. Passava grande parte do tempo com ela e assim, faziam as mesmas coisas e João pretendera seguir a mesma carreira de Célia, sua querida mãe. Seu relacionamento com o pai era na maioria das vezes, um pouco competitivo e se enquadraria no quesito “profissional”, porém, João o amava, não somente por ele ser seu pai, como também por ele fazer sua mãe feliz.
Foi então que o destino resolveu intervir na vida perfeita da família Albuquerque. O maravilhoso e incontestável destino resolveu pregar uma peça em João, cujo não tinha assim tanta fé no poder de ação desse agente invisível.
João estava seguindo sua deliciosa rotina, quando decidiu quebrá-la, mesmo que um pouquinho. Desviou-se do caminho retilíneo para a escola e fez um percurso totalmente diferente, por ali mesmo no bairro onde morava, na Granja. Foi por volta de uns quinze minutos de caminhada, que ele avistou o carro. O Astra Opel prateado de seu pai, sem dúvida alguma estava parado diante de uma casinha, nem tão simples, porém exprimida entre duas construções maiores. Já estava sorrindo em direção ao local, quando seu pai, Carlos, saiu por entre uma porta de madeira rústica e aparentemente pesada, com pressa, seguido por uma mulher alta com o corpo muito bem desenhado por baixo de um suéter de lã dourada.
Fez a menção de cruzar o caminho de ambos, quando a uma pequena distância, viu seu pai beijando a mulher reta e esbelta. João simplesmente se agachou e ficou ali, encolhidinho entre alguns arbustos de sálvia e um punhado de girassóis.
Um beijo. Um simples beijo e seu mundo ruíra. Seu pai estava traindo sua mãe, e pior, estava traindo a sua confiança, confiança que tinha entregue ao pai, sob a promessa silenciosa de paz e felicidade. Perfeição. Perfeição. Perfeição. A maldita palavra ecoava em sua mente enquanto retomava o caminho para casa e se aninhava debaixo de seus cobertores em caracol. Perfeição. A perdera há muito, pelo jeito, só que foi muito cego para não ver.
Pouco depois do almoço, seu pai chegou, já dizendo o quanto amava os filhos e a esposa. “Cretino”, “Traidor”, “Mentiroso”. João só conseguia pensar na figura que um dia admirara traindo sua paz, traindo sua perfeição. Matutou a maldita cena em sua mente pervertida pela incompreensão, quando decidiu ir até a casa onde, mais cedo, vira a infame cena de traição.
Traição. Essa era a palavra. Não só a traição conjugal, mas a traição de um pai para com um filho. A traição da perfeição. E isso, João não perdoaria. Vestiu seu melhor casaco e se dirigiu no melhor de seus dezesseis anos até a casa, a casa exprimidinha que vira mais cedo.
Chegou. Bateu na porta, clamou por atenção. A mulher esbelta e magra como uma aveleira e tão bela como o fruto, abriu a porta em um sorriso promissor e convidativo para João. A única reação que lhe veio foi de simplesmente cuspir de sua mente tudo o que pensara a tarde inteira sobre aquele vendaval, que poderia destruir seu lar.
Após uma séria conversa na soleira da porta, a feição da mulher tinha se estreitado e passado de convidativo para receoso. João descarregou tudo que vinha em sua mente sobre sua família perfeita, sobre sua vida perfeita e de como não admitia que uma meretriz sem qualquer relevância, poderia destruir a paz que tinha em seu lar e levar o coração de sua pobre mãe feliz e apaixonada à loucura. Entre as palavras do garoto em histeria, a moça só podia dizer que lamentava e que estava realmente apaixonada por Carlos. Entredentes, João seguiu a mulher, ainda inconformado, até o estacionamento, onde ambos entraram no simplório carro esportivo da moça. Ela dizia que o levaria até o encontro anual de casais que acontecia todo ano ali na Granja mesmo, local onde estariam seus pais e local também, como ela mesma dizia, iriam resolver o assunto em conjunto.
Aquilo fez o coração de João estremecer. Seu pai sem dúvida não merecia o amor de sua mãe, mas, mesmo assim, não poderia permitir que uma rameira, desprovida do mínimo de inteligência, fosse até um evento público e arruinasse o casamento perfeito de sua mãe.
No calor do momento, João agiu sem pensar, e sem perceber que estavam em uma rodovia um tanto agitada, começou a desviar a atenção da mulher do volante. Um cargueiro que passava por ali no exato momento do descontrole por parte da bela motorista, levou o simplório carro esportivo ao súcubo das trevas, triunfante em um sepulcro alarmante.
E, no final das contas, a traição desvaneceu no ar e aquele segredo morreu ali.
“Essas alegrias violentas, têm fins violentos, falecendo no triunfo que como fogo e pólvora, num beijo se consomem”
William Shakespeare.
Às a verdade é trágica e trair é só mais uma forma de mentir...
ResponderExcluirGostei do começo do blog, quando der visite o meu: http://www.escritosbe.blogspot.com/
Abçs!
Nada é perfeito, a vida nunca é perfeita, se a perfeição existisse não haveria motivo para se viver, qual sonho terá uma pessoa cujo tudo que almeja ja possui? Essa história é uma boa demonstração de que, aos olhos das pessoas, aquilo que parece ser perfeito, na verdade pode ser apenas consequencia ou camuflagem dos erros cometidos. E, tragicamente, como nessa história, as vezes os finais não são felizes nem justos. Muito boa Guih, amei a história! Continue com o blog...
ResponderExcluirCertamente, meus caros. A perfeição é inatingível, e por esse motivo há o sentido em viver. Obrigado!
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