sábado, 17 de setembro de 2011

Sertão de Pedra

    Eu sempre fui obstinado."Obstinado". Bom, na verdade, eu nunca soube o que isso realmente significava, só que fora a palavra que eu mais ouvira na Cidade Grande, depois da minha retirada do Sertão.
    Vim de lá do grande Sertão, da terra seca, onde residem homens com a alma tão seca quanto. Do lugar onde a Miséria reina e a Fome, a Sede e a Ignorância lhe prestam vassalagem, compondo a grandiosa corte da Desigualdade no nosso país.
    Cheguei em uma larga carruagem motorizada, que palpitava a cada metro percorrido em um extensão notória, como se fosse o meu amigo Velho Chico, só que de uma composição diferente, cinza e preto, que chamam de pavimento.Assim, mesmo cansado, fui logo atrás de um bom senhor que me desse uma ocupação para me honrar a seca alma. Insisti especialmente em um mesmo Velho, abordando-o várias vezes, até convencê-lo de que eu seria ótimo para o cargo proposto. Consegui um rumo até o lado do Sol. "Obstinado" disse ele, ao me contratar para servir mesas, em seu pequeno restaurante de comidas típicas do meu Sertão.
   Eu sempre tivera um sonho. Simples, confesso, tão simples quanto eu mesmo. Sempre quis ter um Jardim formoso e verde, perfumado dignamente, uma dádiva que não era dada por meu bom Deus e nem por meu Padin Ciço lá no meu Sertão. Cansei de ouvir que preto-queimado-de-sol, cabeça-chata e pé-largo, aqui na Cidade Grande não tinha vez. Ora, vivemos todos no Brasil. Porque, eu, um sujeito homem, trabalhador, não mereço as mesmas chances de provar que "posso" como os que nunca enfrentaram o Sol ardido de uma tarde na Cana? Pensei um dia, que eu era menos brasileiro que os brasileiros. 
  Mas, eu continuei. Para um homem como eu, quando as portas se fecham, só resta continuar caminhando, batendo em várias outras fechaduras, até encontrar uma que esteja aberta. Me dei valor através da desvalorização, cumpri meu papel de "obstinado" e após muito suor, arrumei minha vida nos trilhos certos, e além disso, alguém com quem dividir meu leito e me dar umas bençãos. Depois da luta, depois de encarar o Sertão de Pedra, que era de pedra, mas não era menos cruel que o meu outro Sertão, vi o arco-íris florescer no meu quintal e por sobre a humilhação que carreguei pelo Sertão, aprendi a dar valor ao meu jardim, porque quintal de vizinho nenhum é mais verde que o meu de Direito.


"Esse conto, foi escrito por mim, com a finalidade imposta por um teste. Simplesmente, foi o tema sugerido pela narrativa da Unicamp em 2010. Decidi compartilhar com vocês, mesmo que não seja o meu estilo de Literatura... Sendo assim, não estranhem, só tentem apreciar."

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