quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A Última Ceia.

  O salão era dourado e resplandecia com a luz divinal do amanhecer.
  O Anfitrião caminhava impaciente, de um lado ao outro do salão, ansioso para a chegada dos seus convidados. Ansiava por tomar as decisões necessárias sozinho, porém, isso causaria uma desarmonia maior ainda entre Eles e também, Ele não se achava mais nesse direito, uma vez que estava desaparecendo, assim como todos os outros convidados.
  Sentou-se na cabeceira da mesa e procurou acalmar-se. Seu Filho sentou-se ao seu lado, com um leve sorriso no rosto e um olhar preocupado, lançado sobre o salão vazio. A mesa havia sido cautelosamente dividida, para demonstrar que não havia superioridade entre nenhum Deles ali. Havia, em uma cabeceira, uma tríade de cadeiras, porém, adjacentes à tríade, haviam apenas cadeiras altas, uniformemente distribuídas para os convidados que viriam sozinhos. Seus corações se apertaram quando Eles começaram a chegar.
  A primeira cadeira, ao lado do Anfitrião foi ocupada por um homem corpulento e altivo, que como saudação dera apenas um aceno de cabeça, nada mais. Trazia sua clave junto ao corpo, símbolo de sua força. Como companhia, trouxera sua esposa, a Mulher-de-Três-Faces, rainha dos antigos homens da Europa, os Celtas. Eram os deuses Dagda, Senhor Supremo Celta e Danu, sua esposa.
  Poucos minutos depois, o homem-elefante entrou no salão, bufando pela má companhia ao seu lado, aquela que passara a vida repetindo que ela destruiria tudo e apenas ela. Ganesha e Kali sentaram, de má vontade, um ao lado do outro. Assim que se sentaram, mais convidados foram introduzidos no salão. Shangdi, com seus olhos apertados e desconfiados, nativos de seu domínio, a China, sentou-se rapidamente, alegando que tinha pressa. Cernunnos, o mais fraco dos Senhores ali presente, Senhor da antiga religião wicca, sentou-se, com o auxílio de um serviçal, ao lado oposto de Dagda, seu inimigo. Um momento depois, um trovão rugiu do lado de fora e Thor foi introduzido no salão, ao lado de seu pai, Odin, sem a mínima educação de saudar os Outros presentes. Para preocupação de todos, Osíris viera acompanhado de seu irmão e rival mais fiel, Set, dizendo com suas vozes penetrantes, que o Senhor Supremo Rá não poderia estar presente, uma vez que fora ao reino dos homens saudá-los pela recente vitória perante um ditador qualquer do Egito.
  O Anfitrião já ia começar seu discurso acerca dos motivos e preocupações que os trouxeram ali, quando a segunda aliança mais poderosa presente foi introduzida na sala. Sempre discutindo entre si, os três irmãos ocuparam seus lugares junto à mesa. Eram Zeus, Poseidon e Hades.
  Como a reunião estava completa, o Anfitrião se levantou e iniciou.
  - Sabem por que foram chamados aqui, irmãos. Temos que tomar providências relevantes acerca do pequeno Reino dos Homens e...
  - Por favor! Não nos chame de irmãos. Sua existência está sendo a nossa destruição, acho indigno de sua parte nos tomar como até mesmo, amigos. – Interrompeu Hades.
  O Filho do Anfitrião se levantou.
 - Quanta blasfêmia! Meu pai e eu estamos tentando trazer paz ao Reino dos Homens, irmãos! Entendam isso.
 - Paz? Estão a quanto tempo prometendo paz? Você está prometendo paz há 2012  anos! E eu, não a vejo em lugar nenhum! – Odin rugiu.
 - Nossos recursos estão se esgotando, senhores. Precisamos de vossa ajuda para cumprir nossa missão de Paz. – Disse o Anfitrião.
 - Sua religião destruiu as nossas e ainda quer nossa ajuda? Eu fico mais fraco a cada dia, uma vez que poucos são aqueles que ainda crêem na minha existência. Nós éramos os senhores supremos dos homens. – Ergueu a voz, Cernunnos - Eles nos temiam, nos veneravam. Até vocês dois chegarem a Terra e prometer PAZ! Querem uma dica? Nunca deveriam ter prometido paz, pois essa é uma condição inatingível aos homens. Deveriam ter imposto seu domínio, assim como nós.
 - São por esses motivos que vocês estão se destruindo. Por esses motivos que nós todos estamos morrendo. Olhem para os homens. Eles não são nada. São coisas frágeis que necessitam de algo superior para governá-los, precisam de coisas para que idolatrem. Precisam ser castigados. Precisam ser punidos! Paz nunca foi o objetivo dos homens. Sempre haverá alguém superior. Sempre haverá um homem que se achará um Deus perto dos outros. Sempre. – Set cuspiu aquelas palavras diante de seus anfitriões.
 - Acontece, irmãos, que os homens estão cada vez mais presos à carne e à matéria. Eles não acreditam mais em nós, em nenhum de nós. Os poucos que acreditam são chamados de loucos, fanáticos e obcecados. Temos que tomar alguma providência acerca disso, senão vamos todos desaparecer! – o Filho do Anfitrião suplicou – Por favor, irmãos. Precisamos nos unir.
 - E o que vamos ganhar com isso? Ninguém mais crê em nós. Somos tachados como simples mitologia agora. Somos meros deuses que foram criados pelos homens para justificar fenômenos da natureza! Somos fracos! Sabe o que vamos ganhar levando paz ou fé aos homens? O predomínio, repetidamente, da religião cristã. – Ganesha e Kali se pronunciaram em uníssono. – Vamos desfalecer, amigos, mas, vamos desfalecer todos de uma só vez. – E após aquelas palavras rudes, os deuses hindus se retiraram da mesa e desapareceram em um brilho tênue.
- Os homens não querem paz, Jeová. Querem destruição, poder, anarquia. Desejam se  destruir uns aos outros, por sua malevolência e ganância. Não há nada que possamos fazer. Apenas sentar e assistir ao espetáculo da destruição. – Esbravejou Dadga – De nada somos capazes, se eles querem ir contra seus próprios princípios, que se destruam. Nada podemos fazer contra eles. Não podemos nos virar contra nossos criadores.
  Dagda e Danu se levantaram calmamente da mesa, acenaram para Jeová e seu filho e, seguidos por Cernunnos, foram embora, para sempre.
 - Os homens nos criaram, Geová. Somente eles podem nos destruir. – Shangdi estava se despedindo. – Adeus, gostaria de poder dizer que seria bom revê-lo.
  Geová e seu filho, Jesus, observavam a sala se esvaziar e seus convidados partirem sem prestarem a ajuda que lhes fora solicitada.
 - Se ninguém mais crê em nós, não vale a pena salvá-los, é o que vos digo! Aasgard estará disponível, se quiserem nos visitar. Muito embora, eu julgue que nós não tenhamos muito tempo de existência. Ficamos mais fracos cada dia que passa. Perdemos nossos poderes. Nada podemos fazer. – Thor dirigiu aquelas palavras estranhamente educadas ao Filho e, ajudando seu pobre pai, Odin, se foi para seu castelo no céu do outro lado do mundo.
  Finalmente, Zeus, Poseidon, Hades, Set e Osíris ficaram a sós com os anfitriões da reunião. Ficaram por um momento cansativo se entreolhando e por fim, sem dizer nenhuma palavra, todos se retiraram ao mesmo tempo.
  Jeová voltou ao seu estado se nervosismo ao lado do Filho, sem saber o que fazer, nem dizer. Em poucos dias viria o Reinos dos Homens desaparecer e junto com eles, ele próprio e sua religião.
  - Isso nunca foi sobre salvar os homens não foi, Jeová? Essa encenação toda foi sobre salvar sua própria cabeça e sua religião! Eles te criaram, eles te destruirão. Eles te colocaram no poder, eles te deporão. No fim, você nunca foi Deus. Deus sempre foi o Homem. O Homem, que é o único ser capaz de criar e destruir, amar e odiar. Você sempre julgou ter recebido todo o poder dos homens, mas, você na verdade foi apenas um símbolo, uma prova do poder deles. E agora eles não precisam mais de você. – Jeová, aturdido com aquelas palavras que só poderiam vir de um único ser, um único convidado que não era bem vindo, olhou para a soleira da porta e viu Lúcifer. – Os homens sempre foram os verdadeiros deuses. Todos sempre tiveram todos os poderem que um Deus pode ter. Mas, infelizmente, optaram por usar apenas o poder da Destruição.
   E juntos, do alto dos Céus, os anfitriões e o convidado que nunca fora bem vindo, vislumbraram os últimos momentos do Reino dos Homens, assim como vislumbraram seus últimos momentos de existência.
  Eles nos criaram. Nós os destruímos.

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