domingo, 26 de junho de 2011

Segredo

    João Pedro tinha uma vida perfeita. Tinha a escola perfeita, os amigos perfeitos, um futuro promissor e acima de tudo, tinha a família perfeita.
    Filho de um engenheiro consagrado no ramo civil de São Paulo com uma ex-diplomata, João era o primogênito, tendo apenas um irmão, cujo desde pequeno demonstrava as habilidades do pai para com cálculos e contas imensas, ao contrário de João, que tinha grande talento oratório e representativo, tal como a mãe.
   João ouvia seus amigos reclamarem de como seus pais sempre brigavam, discutiam ou até mesmo se divorciavam. Uma de suas amigas era órfã de pai, fato que João realmente lamentava, assim como todos os outros casos de família que ouvia, uma vez que ele possuía a família que todos desejavam: A perfeita.
  O garoto promissor tinha uma afeição em especial excesso por sua mãe. Passava grande parte do tempo com ela e assim, faziam as mesmas coisas e João pretendera seguir a mesma carreira de Célia, sua querida mãe. Seu relacionamento com o pai era na maioria das vezes, um pouco competitivo e se enquadraria no quesito “profissional”, porém, João o amava, não somente por ele ser seu pai, como também por ele fazer sua mãe feliz.
  Foi então que o destino resolveu intervir na vida perfeita da família Albuquerque. O maravilhoso e incontestável destino resolveu pregar uma peça em João, cujo não tinha assim tanta fé no poder de ação desse agente invisível.
  João estava seguindo sua deliciosa rotina, quando decidiu quebrá-la, mesmo que um pouquinho. Desviou-se do caminho retilíneo para a escola e fez um percurso totalmente diferente, por ali mesmo no bairro onde morava, na Granja. Foi por volta de uns quinze minutos de caminhada, que ele avistou o carro. O Astra Opel prateado de seu pai, sem dúvida alguma estava parado diante de uma casinha, nem tão simples, porém exprimida entre duas construções maiores. Já estava sorrindo em direção ao local, quando seu pai, Carlos, saiu por entre uma porta de madeira rústica e aparentemente pesada, com pressa, seguido por uma mulher alta com o corpo muito bem desenhado por baixo de um suéter de lã dourada.
  Fez a menção de cruzar o caminho de ambos, quando a uma pequena distância, viu seu pai beijando a mulher reta e esbelta. João simplesmente se agachou e ficou ali, encolhidinho entre alguns arbustos de sálvia e um punhado de girassóis.
  Um beijo. Um simples beijo e seu mundo ruíra. Seu pai estava traindo sua mãe, e pior, estava traindo a sua confiança, confiança que tinha entregue ao pai, sob a promessa silenciosa de paz e felicidade. Perfeição. Perfeição. Perfeição. A maldita palavra ecoava em sua mente enquanto retomava o caminho para casa e se aninhava debaixo de seus cobertores em caracol. Perfeição. A perdera há muito, pelo jeito, só que foi muito cego para não ver.
  Pouco depois do almoço, seu pai chegou, já dizendo o quanto amava os filhos e a esposa. “Cretino”, “Traidor”, “Mentiroso”. João só conseguia pensar na figura que um dia admirara traindo sua paz, traindo sua perfeição. Matutou a maldita cena em sua mente pervertida pela incompreensão, quando decidiu ir até a casa onde, mais cedo, vira a infame cena de traição.
  Traição. Essa era a palavra. Não só a traição conjugal, mas a traição de um pai para com um filho. A traição da perfeição. E isso, João não perdoaria. Vestiu seu melhor casaco e se dirigiu no melhor de seus dezesseis anos até a casa, a casa exprimidinha que vira mais cedo.
  Chegou. Bateu na porta, clamou por atenção. A mulher esbelta e magra como uma aveleira e tão bela como o fruto, abriu a porta em um sorriso promissor e convidativo para João. A única reação que lhe veio foi de simplesmente cuspir de sua mente tudo o que pensara a tarde inteira sobre aquele vendaval, que poderia destruir seu lar.
  Após uma séria conversa na soleira da porta, a feição da mulher tinha se estreitado e passado de convidativo para receoso. João descarregou tudo que vinha em sua mente sobre sua família perfeita, sobre sua vida perfeita e de como não admitia que uma meretriz sem qualquer relevância, poderia destruir a paz que tinha em seu lar e levar o coração de sua pobre mãe feliz e apaixonada à loucura. Entre as palavras do garoto em histeria, a moça só podia dizer que lamentava e que estava realmente apaixonada por Carlos. Entredentes, João seguiu a mulher, ainda inconformado, até o estacionamento, onde ambos entraram no simplório carro esportivo da moça. Ela dizia que o levaria até o encontro anual de casais que acontecia todo ano ali na Granja mesmo, local onde estariam seus pais e local também, como ela mesma dizia, iriam resolver o assunto em conjunto.
  Aquilo fez o coração de João estremecer. Seu pai sem dúvida não merecia o amor de sua mãe, mas, mesmo assim, não poderia permitir que uma rameira, desprovida do mínimo de inteligência, fosse até um evento público e arruinasse o casamento perfeito de sua mãe.
  No calor do momento, João agiu sem pensar, e sem perceber que estavam em uma rodovia um tanto agitada, começou a desviar a atenção da mulher do volante. Um cargueiro que passava por ali no exato momento do descontrole por parte da bela motorista, levou o simplório carro esportivo ao súcubo das trevas, triunfante em um sepulcro alarmante.
  E, no final das contas, a traição desvaneceu no ar e aquele segredo morreu ali.
 
“Essas alegrias violentas, têm fins violentos, falecendo no triunfo que como fogo e pólvora, num beijo se consomem”
                                      William Shakespeare.

O Comedor de Tintas

       Chapeuzinho Vermelho corria apressada pelos corredores do castelo de Apollo, a residência oficial do conselho honorário de contos de fadas. Ela havia sido convocada até ali para discutir ao lado de vários outros personagens de histórias clássicas sobre um novo inimigo que ameaçava destruir todo o mundo encantado.
        Ao abrir a porta, se deparou com todos os membros voltados com atenção para Rapunzel, que, ao que parecia, estava falando algo muito sério. Foi um dos três porquinhos que quebrou o silêncio:
            – Mas, como vamos destruir um intruso sem saber quem é?
            – Não sei ao certo, querido porco, mas temos que tentar. Agora que estou no comando após as histórias de Cinderela e Branca de Neve serem devoradas -  Rapunzel disse atônita - quero esforço total, uma vez que minha história é a próxima a ser devorada.
       Chapeuzinho olhou em volta e reconheceu vários contos: Os Três Porquinhos, Bela Adormecida, Rapunzel, João e Maria e até Mickey e Minnie estavam presentes.
            – …o devorador de tinta esta acabando com nossas histórias – dizia Minnie desesperadamente.
       Chapeuzinho se apressou a sentar e ergueu o braço, em súplica para dizer algo.
            – Alguém quer dizer algo sobre esse infortúnio? – ergueu a voz, Rapunzel. Todos esperavam os conselhos de personagens mais velhos. Por ser a mais nova, e também não ter príncipe encantado como as outras princesas, nunca ouviam Chapeuzinho.
       Chapeuzinho se ergueu em um salto e disse:
            – Eu tenho algo a dizer sobre… – e foi interrompida por um rugido assustador e melancólico.
       A informação que Chapeuzinho tinha era que, havia um vilão no meio de todos aqueles mocinhos, só não sabia exatamente quem era.
      Com o estrondo do rugido, a abóbada enfeitada com lustre, iluminados do castelo, estremeceu. Havia alguém que fugia ao olhar esperto e jovial de Chapeuzinho. Bela Adormecida permanecera em um sono profundo no canto do Conselho, até que então, de súbito, levantou, pulou por sobre as cabeças de João e Maria e escapou pela porta de madeira da sala, deixando vários olhares interrogativos em torno da lareira.
            –Ela é a espiã… – gritou a voz infantil da pobre Chapeuzinho – o monstro esta aqui, corr…  – e então as vidraças principais de vista para o reino explodiram.
             O monstro que ali surgiu, tinha dentes enormes, olhar cansado e patas com garras afiadas.
            “Esse não é mais um conto de fadas”, pensou Chapeuzinho.
            E não era mesmo, portanto seu final feliz, não era garantido. Em uma boca sepulcral, o monstro comedor de tinta, devorou todos os contos de fadas.
            E esse monstro, atualmente, se chama velhice.